O mundo desfronteirizado resultará, conceitualmente, na revitalização do indivíduo que, diante das perspectivas tecnológicas disponíveis, ressurgirá como principal agente agregador de valor em uma sociedade dominada pela inércia de seus modelos de poder. Esse indivíduo deseja alterar as coisas à partir do nível de atuação ao seu alcance, ou seja, não se deseja elevar o problema ao nível que não se possa atuar, mas ao contrário, trazer o problema para o nível em que não cabem transferências de responsabilidade.

Os sistemas de transportes de nossas grandes cidades traduzem toda a impotência e falta de interferência que os indivíduos exercem sobre eles, pois resultam de decisões arbitradas pelos prestadores de serviço, limitados ou potencializados pelas perspectivas econômicas. Atualmente é possível fiscalizar a qualidade de combustível que consumimos em nossos automóveis, o número de caixas de litros de leite que podem ser armazenadas, umas sobre as outras, sem prejuízo da qualidade do leite, graças aos parâmetros e ferramentas disponibilizadas ao cidadão que pode fiscalizar e acionar os órgãos de defesa do consumidor de forma objetiva, atingindo seu desejo de atuar sobre estes problemas que afetam sua qualidade de vida. No entanto, como "impactar" nos serviços públicos? Quais as ferramentas de que dispõe o cidadão para atuar nos sistemas de transportes de forma a produzir a melhoria de sua qualidade de vida?

Como perceber se um pólo gerador de tráfego terá o adequado tratamento técnico de forma a não comprometer um sistema viário enquanto permite o oferecimento de facilidades à sociedade. Como saber se os recursos escassos devem ser aplicados ou não no empreendimento que o governo propõe para um determinado corredor?

Desejo produzir um material que disponibilize ao cidadão, as ferramentas que lhe permitam aferir se a construção de um shopping center irá produzir prejuízos à sua qualidade de vida e/ou à de outras pessoas. Desejo produzir um material que dê condições ao cidadão de opinar sobre a construção de uma garagem subterrânea, do aumento ou redução do n.º de linhas de ônibus em um determinado corredor, enfim , algo em que o cidadão possa se basear para atingir todos os agentes relacionados à produção do serviço de transportes, e ser atingido por eles. Algo que sacie esta característica do ser humano desfronteirizado que é a vontade de pertencer ao processo da transformação do seu contexto em outro melhor.

Eduardo Dantas