Ao ler o artigo do arquiteto Paulo Casé -"Finalmente, uma unanimidade", senti impulso imediato de levantar-me da cadeira para manifestar outra opinião, menos pela condução do projeto e seus reflexos para os favelados, que são muito positivos, e mais pelo tom excessivamente vitorioso que a pretensa unanimidade possa conceber.

O caminho da integração da favela à cidade formal pode, à luz da unanimidade, acarretar erros estratégicos, visto que existem outras soluções que não podem ser desprezadas. Olho para o Parque da Catacumba, que com toda a sua beleza transforma aquela região da Lagoa em um dos m2 mais caros da cidade, gerando um belíssimo cartão postal para ser visto por todo o mundo, trazendo riqueza para nossa cidade, que pode e deve ser distribuída para os cariocas, em especial os subcidadãos, e penso que, felizmente, hoje, a Catacumba não precisa de favela-bairro. Mas, e se a favela ainda estivesse lá?

Com toda a mortandade de peixes, é inegável que muitos turistas vêm ao Brasil, porque o Rio de Janeiro é sua porta de entrada, para ver a Lagoa Rodrigo de Freitas em festa, e o turismo é, sem dúvida nenhuma, nossa maior vocação natural. Mas, e se a favela ainda estivesse lá? Com todos os cocôs do mar poluído de Copacabana, os turistas em peso a visitam, porque 70% da rede hoteleira da cidade está lá. Mas, e se as favelas não estivessem lá?

E se as pessoas do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho tivessem a oportunidade de se integrar à sociedade formal de forma imediata e não gradual? E se elas pudessem escolher onde morar, com os recursos que receberiam pela venda do solo que ocupam pelo valor que o mesmo teria se estivesse "limpo"? E se elas pudessem de um dia para o outro desfrutar da liberdade das leis da sociedade, com direitos e obrigações que a lei da droga não pode conceder?

Há muito a se ganhar com a erradicação daquelas favelas, se considerarmos o mundo do valor, o mundo da qualidade de vida, o mundo das oportunidades. Por tudo isso é que me sinto inquieto, pela perspectiva de que o programa favela-bairro, cujo valor é inquestionável, merecendo nosso total apoio para continuidade, venha a produzir o conforto da missão cumprida, pois não "redime os discursos por justiça social", e não "repara a enunciação de conceitos de difícil comprovação", limitando-se a traduzir as ações concretas e visíveis que a arquitetura pode produzir para saciar as necessidades básicas de infraestrutura que as pessoas da favela têm que ter atendidas.

Espero, honestamente, que o somatório de erros que nossa elite vêm cometendo, possa produzir, por outro lado, a maturada vontade política de produzir um programa ainda melhor do que o favela-bairro, envolvendo a sociedade como um todo: O programa Subcidadão-Cidadão.

Eduardo Dantas - O Globo 05/00